segunda-feira, 24 de novembro de 2008

PORQUE FUNCIONA REGISTRAR EXPERIÊNCIAS TRAUMÁTICAS ATRAVÉS DA ESCRITA, SOBRE AS QUAIS NEM SEMPRE SE CONSEGUE FALAR?

Por Maria de Jesus Mello

“A escrita, nada mais é do que um sonho, portador de conselhos”, dizia o escritor argentino Jorge Luiz Borges (1899 – 1986).
Escrever de forma orientada sobre experiências traumáticas, pode ajudar as pessoas a realizar uma introspecção e assim por meio da escrita vir lágrimas, reconhecimento da frustração e da raiva pela perda precoce, associações que a remeteram as cenas de mortes vividas na infância, reflexões, de novo as palavras...e um novo alento.
Registrar através da escrita as experiências negativas pode ser uma técnica terapeuta muito eficaz em determinadas circunstâncias. Segundo o professor Luigi Solano da Universidade La Sapienza, em Roma, o objetivo da escrita é ajudar o paciente a compreender melhor as questões que o inquietam, aproximar-se dos sintomas e da dor psíquica da forma protegida traduzindo emoções em palavras. Ele acredita que a escrita de forma terapêutica, ajuda a pessoa a descrever detalhes de experiências traumáticas, expressar sentimentos, numerar os fatos de forma cronológica, estabelecendo nexos e favorecendo a organização psíquica.
Porque funciona? Mas afinal, como o registro das experiências no papel pode causar tantos benefícios? Todo o ser humano, desde o útero materno até a 3ª idade, passa por eventos traumáticos e quando expõe as emoções negativas e trajetórias na escrita, quase sempre vem a tona um evento que incomoda. Portanto, escrever propõe reelaborar e superar dores psicoemocionais angustiantes. A escrita ensina a mente a pensar de forma mais complexa e articulada, é tipo exercício mental que coopera nas relações de comunicação interna e com o próximo.
Uma pesquisa recente, realizada na Itália, avaliou os efeitos da escrita na saúde psíquica e física de vinte gestantes. Durante seis sessões, elas escreveram sobre sentimentos e pensamentos ligados a gravidez. Nas duas últimas sessões as futuras mães, descreveram sobre as expectativas e fantasias relacionadas ao parto e ao recém nascido. Comparadas as outras grávidas, elas manifestaram maior capacidade de exprimir as emoções, sentiram menos dor no parto, menor risco de depressão pós parto e facilidade de amamentação. ( Mente e Cérebro nº 184,p.77).
Estudos científicos comprovam que após a pessoa exprimir seus sentimentos e emoções através da escrita, torna-se mais ativo o relacionamento social e consigo mesmo, portanto, registrar periodicamente nossas vivências, favorece a cognição e o entendimento das nossas experiências. Elaborar um diário íntimo pode ser benéfico para qualquer pessoa. Como diz o poeta Stanley Kunitz “ O inconsciente cria, o ego edita”.